Era noite e nós cantávamos… (parte I)

Era noite e nós cantávamos… (parte I)

Redação | Opinião

Assessoria
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Abril de 64 iniciou com as ruas tomadas por tropas e tanques. Os militares, com apoio dos Estados Unidos e forças políticas reacionárias, depuseram o presidente João Goulart que se exilou no Uruguai. Era o começo de um dos mais nefastos períodos da história do Brasil. Logo vieram cassações e censuras. Um imenso silêncio começa a tomar conta do país. A esquerda brasileira cai na clandestinidade e reage como pode às prisões e às torturas. Da luta armada à música de protesto, fez-se o possível para que a democracia não perecesse. E foi um longo e dolorido caminho…

No final dos anos 50, surgia um novo jeito de tocar e cantar, com forte influência do jazz e, até então, com temas leves e descompromissados. A casa da menina Nara Leão era o local onde se encontravam os precursores do novo estilo musical. Ali, reuniam-se Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Léo Castro Neves e João Gilberto, entre outros. Podia se ouvir em “Chega de saudade” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) a nova batida do violão inventada por João Gilberto. Jobim já fazia parte da noite carioca com canções que se tornariam clássicos da Bossa Nova como “Desafinado” e “Samba de uma nota só”.

Beberam nessa fonte, posteriormente, outros grandes da MPB como Dori Caymmi, Francis Hime, Wilson Simonal, Caetano, Gil, Toquinho e Chico Buarque. Este participou do programa, apresentado pela incomparável Elis Regina, na Record. “O fino da bossa”. Em 1965, a TV Excelsior lançou o 1º Festival Nacional de Música Popular Brasileira, Chico participa com “Sonho de um carnaval”, defendida por Geraldo Vandré que cantou “Deixei a dor em casa me esperando/ E brinquei e gritei e fui vestido de rei”; porém, Sai vencedora “Arrastão” de Edu lobo e Vinicius, interpretada por Elis Regina que com uma força impressionante, literalmente, arrastou a plateia cantando “He, tem jangada no mar/ He, hoje tem arrastão/ He, todo mundo vai pescar” levando o “Berimbau de ouro” e dez milhões de cruzeiros. (Nem faço ideia de quanto seria isso hoje).

As nuvens se adensavam em 66, a Ditadura havia imposto dois atos institucionais (AI1 que cassou os direitos políticos de 102 pessoas e o AI2 que estabeleceu o bipartidarismo e a eleição indireta pra presidente) e mais, com o AI3 que introduziu eleições indiretas pra governadores e a indicação dos prefeitos das capitais e dos municípios ditos de segurança nacional. Em meio ao recrudescimento do regime e com nítida certeza dos anos de chumbo, TV Record promove o Festival de Música brasileira, em São Paulo. Desta vez, Chico Buarque vence com “A Banda” cantada em parceria com Nara: “A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor”; mas divide o prêmio com “Disparada” de Geraldo Vandré e Téo Barros, na voz de Jair Rodrigues: “Prepare seu coração/ Pras coisas que eu vou contar/ Eu venho lá do sertão/ Eu venho lá do sertão/ e posso não lhe agradar”. Nos dois primeiros lugares havia, ainda que veladamente, laivos de indignação com a realidade política.

Esses primeiros momentos da Ditadura e da tentativa de uma resistência através da música precisam ser melhor discutidos e, nessa revisão, estabelecermos um contraponto com a música atual e a realidade política do Brasil. Na semana vindoura, vamos passear pelos festivais de 67 e 68 e, também, pela década do “Milagre Econômico” para sabermos se a máxima “Quem canta, seus males espanta” é mesmo verdadeira.

Sérgio Cintra é professor de Linguagens e de Redação em Cuiabá.
sergiocintraprof@gmail.com